domingo, 20 de agosto de 2017

Correspondência - Augusto de Lima

 
Correspondência
 
                   I
 
“Prisma, disse a Harmonia, dá-me as tintas
com que no íris a luz etérea esgotas.”
Responde o Prisma: “Dá-me as sete notas
com que os humanos sentimentos pintas.”
 
Intervém o Perfume: “Inutilmente
unir-vos-eis sem mim, alma das flores:
das setes notas e das sete cores
guardo a aliança no meu seio ardente.”
 
                 II
 
Há com efeito acordes no perfume,
de intenso colorido harmonioso,
que, no delíquio do supremo gozo,
as sensações universais resume.
 
Nossos olhos não veem, nossos ouvidos
não escutam; mas a alma inebriada
ouve cantar na abóboda azulada
os cintilantes astros comovidos.
 
Na embriaguez das flores, quando assoma
entre sonhos a morte, há de ser grato
à alma romper nas sensações do olfato
e a vida evaporar em pleno Aroma!
 
Augusto de Lima
  
 

sábado, 12 de agosto de 2017

Viver, sonhar, lutar e aprender - Martha Tavares Pezzini



      

        





Crônica depois de revisão.MTP
 
     


      
   

               Viver, sonhar, lutar e aprender 

         Como toda mulher que já viveu um pouco mais de seis décadas... tenho a presunção de possuir alguma bagagem de sabedoria, lucidez, diria até, de um sexto sentido. Sou capaz de ler nas entre linhas, percebo muito rápido, segundas intenções, e não se iluda, posso até parecer ser de Vênus, mas  tenho um pé em Marte. Combati o bom combate em variadas épocas e posições. Não abandonei o gládio, o escudo, o elmo. Ah! A palavra.
         Há algum tempo, só Deus sabe quanto, fui menina tímida, pensadora e questionadora. Ainda que os questionamentos fossem restritos à minha cabeça. Sem Google, bibliotecas e tantas fontes acessíveis agora, somente a sabedoria, principalmente a materna, para elucidar alguns, já que a maioria deles ficava arquivada, para, quem saberia? - um dia! Mais um pouco de tempo, curti o romantismo água com açúcar, às vezes, embalado por alegres musicais dos anos cinquenta/sessenta. Como desejava dançar daquele jeito e com aquelas roupas maravilhosas e brilhantes. Confesso, foi meu sonho maior. Daí, bailei, em bailes do Clube e horas dançantes ao som de orquestras e conjuntos, que hoje se chamam bandas. Mas o privilégio de ter vivido o tempo dos Beatles e da Jovem Guarda, ninguém me tira.
        Deixo aqui uma lacuna. Vocês preencherão com a imaginação, facilmente, se assim lhes aprouver... Muitos chavões. .. vamos em frente! Sem ter tido tempo para pensar, saio da máquina de escrever eletrônica, para a era virtual. O computador e eu nos entendemos logo ou  pelo menos, continuamos tentando nos entender. Há controvérsias. Como apanho desse tirano. Tudo que faço aqui, que é onde estou agora, é no improviso. Costumo dizer que é na marreta. Meu filho, técnico e fera nessa área, se espanta comigo: andei mexendo, é assim que me expresso, até com Photoshop e do autêntico, comprado! Desistir, jamais. Já consegui digitar e publicar dois livros e o terceiro está sendo revisado por mim, no computador, claro. Tenho blog, estou direto no Face e não entendo como algumas amigas vivem sem tudo isso. Não gosto do WatsApp. Viciei nas telas e teclas maiores. Celular, uso muito mal, para falar rápido com minhas filhas e chamar o UBER.
        Sempre adorei viajar. Nada mais excitante do que aquele movimento de aeroporto, depois esparramar no hotel, sair sem saber o que ver ou comer! Por motivos alheios à minha vontade não tenho viajado. Mas quando minha filha me disse que teria uns dias livres e perguntou-me onde eu gostaria de ir, talvez, supondo que eu escolheria uma linda e tranquila paisagem bem das nossas, respondi sem hesitar: - Vamos agendar Nova York.
         Cá entre nós, tudo isso é luta contra o tempo inexorável e cruel. Inexorável é bem retrô... Mas é o que sou, linguagem, conceitos e preceitos, figura e estrutura. É quando a gente inventa de escrever e nos escritos acaba inevitavelmente, RETROagindo!
              Martha Tavares Pezzini

terça-feira, 25 de julho de 2017

Degustando novo livro - Geraldo Roberto da Silva


 Geraldo Roberto da Silva - Artista Matozinhense, radicado no Rio Grande do Sul. A página é sua. Hoje Dia do Escritor somos brindados com as nuances do florescer do jatobá. Parabéns! 
MTP


"Me permite, Martha, usar este espaço para propor uma degustação do meu novo livro (quase pronto), chamado "Quando o jatobá floresce"?
Cada vez que eu publico, eu ato um nó do compromisso, não me permitindo desistir. Por isso faço isso agora, assumindo meus compromissos. O livro será um texto de ficção com mais ou menos 250 páginas, e pretendo, se não houver nenhum entrave, publicá-lo, no máximo até o primeiro semestre do ano que vem".
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Prólogos
Vida longa? Por que eu? Por que os que necessitaram, que mereceram muito mais ter sua continuidade, não puderam viver tanto? Essas vidas foram podadas como essas árvores de copas quadradas aqui em Paris. Moisés, sobretudo, merecia mais. Não merecia ter a continuação de seu caminhar impedida porque ele seria uma pessoa útil no mundo. Foi levado muito cedo. Cumpriu muito menos do que podia, e a sombra da morte apagou a luz dos seus olhos. Pesaroso lembrar isso!
Penso diariamente, do alto de minha velhice, nessas vidas perdidas: Moisés, Martin, tão heróis... Por que G ficou? Por que tenho eu setenta e quatro anos? Por que alguns foram contemplados com graças paralelas como se houvesse uma lei divina de compensação? Tenho essa angústia, principalmente agora, vivendo a solidão que este cinza do céu parisiense me faz sentir. Por que estou em Paris? Fuga? Às vezes acordo com esta pergunta grudada em minha mente e arrasto-a comigo durante todo o dia, qual um peso que se converte em grilhões para as minhas pernas tão cansadas.
Mundo, mundo, vasto mundo... Drummond me persegue!
Enxergo daqui, da janela, o Jardin des Tuileries. Vejo a margem direita do Sena, entre Place de la Concorde et L'Arc de Triomphe du Carroussel. Caminho aí sempre que posso. Hoje Dominique vai comigo. Vai me cobrar com certeza, como sempre faz quando caminhamos, decisões sobre minha literatura. Fará isso hoje, como fez ontem, como fez anteontem... Tento ter a paciência que um quarto casamento exige.
Aqui, por sorte, tenho Edésio Novaes, que é, posso dizer, a maior autoridade em línguas estrangeiras, do meu círculo de relações. Domina inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, sueco, “cearense” e um pouco – eu diria suficiente – de japonês e mandarim. Mora em Paris e –coincidência agradável – é meu vizinho e tornou-se meu amigo. Foi um dos primeiros a acompanhar – desejo dele que fosse assim – cada parte deste livro, da redação final, e até mesmo os pedaços que descartei.
- Isso faz parte do jogo – disse-me um dia. - Melhor conhecer a oficina em todos os detalhes, inclusive a bacia dos descartáveis e as estopas sujas de óleo.
Ele me ajudou, traduzindo para Dominique um resumo da história, e se sentiu feliz, disse-me, pois pode acompanhar o desenrolar do enredo a partir do pacote inicial com tudo que usei e descartei. Este resumão – primeira seleção – encadernada, eu trouxe comigo a Paris onde, decidi, terminaria a escrita. Edésio, educado que é, leu tudo com paciência carinhosa e no final me disse que não recomendava mais nada e que estava tudo muito bom.
Foi dele inclusive a iniciativa da promessa de ir comigo um dia até Rozgrud, a outra “ponta do triângulo”, pois se sentia no direito de participar dessa descoberta. Importante: guardo aqui, por enquanto, o mistério do “triângulo” para provocar o leitor e atiçar sua curiosidade.
Ah!... em tempo: muito vai se ver aqui, a mistura de assuntos e de tempos. Tanto poderemos estar no agora, no momento da escrita, quanto o tempo da ação poderá ser o passado e até, quem sabe, uma previsão futura. Literatura pra mim é isso. Coragem para misturar tempos e coisas é pra poucos. Meu leitor que corra atrás, porque nem tudo neste livro será açucarado ou didático e paternalista. Convidarei, vez em quando, que o leitor adiante-se ou retroceda comigo, pois isso ditará o ritmo, quebrando a pasmaceira tão comum em tanta coisa que a gente lê por aí. Reconheço... tem um pouco de jornalismo nisso sim.
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618, Rue de Rivoli, 75001 é meu endereço de Paris. Aos poucos me acostumo com a cidade e com a língua que não domino bem ainda, coisa contraditória pra quem um dia foi correspondente internacional. Caminharei em direção a Place de la Concorde onde me encontrarei pela segunda vez com Moïse Lafayette... exigência dele, um ano depois do encontro em Montevidéu.
Entregar-me-á um envelope, falará pouco com sua voz fanha e me dirá: “’Lizes chez vous.”. Virará as costas e irá embora sem se despedir. Certamente será assim, sempre do jeito dele, sempre do jeito de todos, nunca do meu jeito.
E Dominique me cobrará na volta: Et alors, avez-vous décidé? Estará se referindo, é claro a algo que não decidi ainda, porque não sei se aproveitarei este texto que escrevo agora, neste momento. Quererá também saber se decidi como assinarei, uma pequena dúvida, não tão séria, mas que às vezes me incomoda como uma coceira. Ela me dirá, certamente, até antevejo: “Saulo! Ça doit être. Son vrai nom! J’aime tant la sonoritá ouvert de Saulo!” falará assim com os ditongos abertos, o “a” espocante como uma bolha que estoura e o “u”como um sopro, além da charmosa invasão do circunflexo no “o” final (“Saulô”). Tentará impor isso.
Mesmo assim, sabendo-as invasoras, sempre procuro uma mulher, uma companhia. É necessário nunca estar só. A solidão engendra a melancolia.
Sinto um arrepio, doem-me as artroses. Adapto uma frase de Proust: “gemo como um galho ao vento de outono.”. Respiro com a dificuldade de um fole furado. Essa última frase é minha.
Sou assim. Voltarei para casa e acenderei a lareira e abrirei o envelope de Lafayette. Sentirei a coceira de botar o pé no mundo e fechar um ciclo terminado ontem, meia-noite, quando fui dormir. Hoje, quando Dominique voltar na hora do almoço me encontrará ali, pensativo, cogitando que tudo começa de novo, agora. Estarei comendo tangerinas e jogando as cascas no fogo. Gosto de fazer isso: vê-las inchar com o calor, as bolhas na parte branca estourando, fazendo um “ploft” baixinho que poucos ouvidos escutam.
Ela me perguntará: escolheu? E eu poderei dizer que sim: assinarei Saulo, Saulo Agnelli, meu nome verdadeiro. Esconderei, a princípio, os comichões que os documentos de Lafayette me causaram.
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sábado, 22 de julho de 2017

Só porque hoje é sábado - Martha Tavares Pezzini






 Meio parodiando Vinícius e homenageando Basilina Pereira, saiu assim de improviso, ainda sujeito a chuvas e trovoadas. MTP

                                          

Só Porque hoje é sábado

Há sol lá fora,
o frio quase foi embora.
O trânsito está meio parado,
Em um dia ensolarado,
Só porque hoje é sábado.

Pensamentos fervilham,
Não encontro meu lugar.
A solidão pesa mais,
O vento é mais gelado,
Só porque hoje é sábado

Invento artimanhas
Pra esquecer os desamores.
Cuido de flores,
De livros desorganizados,
Só porque hoje é sábado

Não quero sair de casa,
Zanzar entre pessoas.
O shopping está lotado,
Ė um total desagrado!
Só porque hoje é sábado

Vou almoçar por aqui
O que tiver para comer.
Um vinho pra aquecer,
Nada muito complicado,
Só porque hoje é sábado

Queria um poema que chegasse cedo
Como o de Basilina,
Igual, tão belo é inspirado,
Um poema inigualável,
Só porque hoje é sábado.

Martha Tavares Pezzini

terça-feira, 11 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017




 Quintana, Poesia!

Para provocar inquietude
Mário Quintana

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta feira...
Quando se vê, passaram sessenta anos...
Agora é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada
E inútil das horas.

Do livro: Para viver com Poesia