quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Uma rua - Martha Vieira Tavares Pezzini

    
   Quero compartilhar com vocês um trecho das lembranças da rua em que vivi. Um lugar onde fui feliz.   
                     
                            Uma   Rua 

     Na entrada da cidade, paralela ao ribeirão, comprida,  empoeirada ou enlameada dependendo do tempo, minha rua está na minha lembrança. Suas casas na maioria, pobres e velhas, algumas ainda de adobe. A poeira cobria as paredes e ocultava a cor, se é que um dia houve cor...  Raramente surgia uma construção nova trazendo um ar de progresso, com suas paredes íntegras e pintadas.
     

Seus moradores eram gente simples mas de respeito, filhos de fazendeiros, imigrantes, comerciantes, funcionários. Por muitos anos permaneceu assim, com suas famílias conhecidas por todos bem como seus antepassados, alguns destes já tendo morado, também, por lá.
   Com o tempo aconteceu a  chegada de  famílias vindas de outras cidades, trazendo suas histórias de vida que em pouco tempo já seriam conhecidas de todos. Pouca coisa ficava  escondida, naquela época numa cidade tão pequena. 
    Nas vendas onde se podia comprar quase tudo  parecia  que o ítem mais vendido era a cachaça. Pães, bolos e doces, eram comprados sem a menor preocupação com a origem e outros detalhes de higiene e validade, hoje tão observados.
    Minha casa era simples, grande, cuidada, fresca e limpa. Acolhedora com seu piso de tábuas largas que variavam de um cômodo para outro. O quintal grande com muitas árvores, uma horta e um jardim e animais domésticos: galinhas e porcos.
    As janelas da frente estavam sempre fechadas para minimizar a poeira que entrava com a passagem dos veículos. Era comum, molhar a rua em frente à casa para atenuar o transtorno causado pelo pó. Havia também o costume de colocar cadeiras no passeio, onde se sentava para conversar.   
    O trânsito, considerando-se a época, era de intensidade razoável, pois sendo a única rua de acesso à cidade, todos os veículos  passavam por ela. O que mais chamava  a atenção eram as carretas que transportavam as toras, produtos do desmatamento.  Não acordara, ainda, para a  visão do dano que  se instalava em nome do progresso ou enriquecimento de quem o promovia. O diâmetro daqueles troncos causava grande admiração... Hoje, imagino como seria a visão daquelas árvores em todo o seu vigor e beleza e me decepciono ante a dureza do homem ao destruí-las insensivelmente.
       Era tão comum ver homens embriagados nas suas vendas, caídos pelo chão, ou mal conseguindo trocar os passos que eu julgava ser aquela uma opção ou o tipo de vida daquelas  pessoas. Uma vida que julgava ser paralela a que eu vivia.  Criança, nada sabia sobre a complexidade da vida e menos ainda sobre o drama do alcoolismo como doença.
     Essa rua guardava com orgulho, um casarão de cor já indefinida, onde toda uma geração realizou a metamorfose mais bela e decisiva que acontece ao homem: o discípulo  moldado nas mãos do mestre.
     Francisco Alves de Souza – Sô Mestre, como era chamado, foi nomeado pelo Estado  e dedicou toda a sua vida a educação. Reconhecidamente foi dado à rua o nome de Rua da Instrução. Justo seria que fosse o nome do professor ou do seu filho, Clementino Lopes, que foi seu auxiliar no ensino, criou sua família  e viveu no casarão até a velhice.
     Ao lado do casarão havia uma subida até a estrada de ferro que nós chamávamos de linha. As crianças gostavam de ver a passagem do trem. Aquele monstro de ferro, bufando, resfolegando e apitando estridentemente, despertava-lhes uma emoção misto de medo, prazer e alegria. E lá ficavam elas, pura adrenalina, acenando para os passageiros em meio a grande algazarra.
    Os sons de uma rua... como esquecer? Estão gravados,  em meus ouvidos. Ora alegres, ora dramáticos. John Lenon sentiu o mesmo: “Penny Lane  in the  my  hears and my eyes...”
     O apito do trem; o barulho da chuva... como chovia, meu Deus! Adorava olhar pela janela a enxurrada correndo cor de barro ou a água que descia do telhado escorrendo de telha a telha; crianças brincando no meio da rua - carrinhos de rolimã, pique , cantigas de roda; o batido ritmado da bigorna na tenda dos Ferrarezzi. Sempre quis saber o porquê  de ser chamado de tenda aquele galpão de trabalho; os congados, em sua época, encantando o povo, trazendo todos às janelas.
     O tempo devastador passou e seus moradores, tiveram de fazer  escolhas que encaminharam suas vidas para outras ruas, praças, cidades onde certamente haveria outros sons mas não haveria a mesma felicidade.   
     O nome da minha rua foi mudado. Sem respeito à história, à tradição e sem pensar que aquele pedaço de chão é também um pedaço da vida de muitos.
      Minha casa não existe mais, como muitas outras. Só em sonhos e nas lembranças...
                                                            Martha Tavares Pezzini

 Blog: Sobre Livros e Autores
 http://marthatavaresspf.blogspot.com/



       

5 comentários:

  1. Que honra um comentário de uma jornalista!

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  2. minha imaginação voou com sua descrição, me senti
    na rua direita hoje rua visconde (em Matozinhos), tão empoeirada quanto sua rua...

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  3. Obrigada Margot! Apareça sempre.

    Colabore conosco.

    Abraço,

    Martha

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  4. Quanta estória pra contar,tudo muito lindo.
    "É gente humilde ai que vontade de chorar"

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